Ir para o Conteúdo da página Ir para o Menu da página
Carregando Dados...
DEIXE AQUI SEU PALPITE PARA O JOGO DO CRICIÚMA!
* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Dr. Renato Matos 12/05/2026 - 12:57 Atualizado em 12/05/2026 - 13:09

Com a transição da COVID-19 de pandemia para doença sazonal, é natural surgir a dúvida: ainda é preciso vacinar? Em outubro de 2025, a Sociedade Americana de Doenças Infecciosas (IDSA) publicou novas diretrizes sobre o tema, e vale comparar suas recomendações com as do Ministério da Saúde do Brasil. A boa notícia é que, embora venham de instituições muito diferentes, as duas chegam a conclusões parecidas e ambas têm grande respaldo científico.

O que é a IDSA?

A Sociedade Americana de Doenças Infecciosas (IDSA, na sigla em inglês) é a principal sociedade médica de doenças infecciosas dos Estados Unidos, fundada em 1963. Reúne mais de 13 mil profissionais médicos infectologistas, pesquisadores, epidemiologistas e farmacêuticos clínicos  e é referência internacional para diretrizes (guidelines) sobre prevenção e tratamento de infecções. Suas orientações passam por uma revisão criteriosa de todos os estudos científicos disponíveis antes de virarem recomendação um processo reconhecido internacionalmente por sua transparência e rigor.

Em outras palavras: quando a IDSA publica uma diretriz, ela é o resultado de revisão sistemática rigorosa e consenso de especialistas independentes — não está vinculada à indústria farmacêutica nem a governos.

Quem deve se vacinar segundo as duas fontes

Crianças saudáveis (sem comorbidades e sem imunossupressão)

Esse é o grupo onde as recomendações mais divergem entre as fontes e onde mais surgem dúvidas de pais e cuidadores. É importante entender o motivo: crianças saudáveis têm risco menor de COVID-19 grave do que adultos, mas não desprezível, especialmente nos primeiros dois anos de vida.

  • Ministério da Saúde: a vacina contra COVID-19 está incluída no Calendário Nacional para crianças de 6 meses a menores de 5 anos, como parte da vacinação de rotina da infância. A partir dos 5 anos, crianças saudáveis podem receber uma dose se desejado, mas não estão entre os grupos prioritários para revacinação semestral.
  • IDSA / Academia Americana de Pediatria (AAP): a IDSA endossa explicitamente as orientações da AAP para crianças saudáveis. A AAP recomenda a vacinação anual para todas as crianças de 6 a 23 meses, já consideradas grupo de risco pela própria idade. Entre 2 e 18 anos, a AAP recomenda uma dose anual para crianças com fatores de risco (asma, obesidade, cardiopatia, diabetes, entre outros) e deixa a vacinação disponível, com periodicidade anual, para crianças saudáveis cujos pais desejem essa proteção.

Um dado importante para essa conversa: estudo do CDC americano analisando crianças e adolescentes hospitalizados por COVID-19 entre 2023 e 2024 mostrou que 50% delas não tinham nenhuma comorbidade prévia eram crianças previamente saudáveis. Entre as hospitalizadas sem comorbidade, 18% precisaram de UTI. Isso reforça que ser saudável não elimina o risco, ainda que o reduza.

Apesar das diferenças no detalhamento, há convergência no ponto mais importante: crianças pequenas (especialmente abaixo de 2 anos) devem ser vacinadas, porque nessa faixa etária a COVID-19 ainda gera hospitalizações e mortes evitáveis. Para crianças maiores e saudáveis, a vacinação permanece disponível e é considerada segura, com a decisão podendo ser individualizada conforme exposição e contexto familiar.

Crianças com condições de risco

  • Ministério da Saúde: vacinação a partir de 6 meses para crianças com comorbidades, com reforço semestral para imunocomprometidas até os 4 anos;
  • IDSA: recomenda vacinação a partir de 6 meses para crianças imunocomprometidas, com pelo menos duas doses do esquema 2025-2026.

Gestantes

  • Ministério da Saúde: uma dose por gestação, em qualquer trimestre, para proteger mãe e bebê (a vacina transfere anticorpos ao recém-nascido);
  • IDSA: considera a gestação como condição que justifica vacinação prioritária.

Pessoas 60+

  • Ministério da Saúde: uma dose a cada 6 meses para pessoas a partir de 60 anos, agora dentro do Calendário Nacional de Vacinação;
  • IDSA: reforça que a idade mais avançada é o principal fator de risco para doença grave e que a vacinação anual ou semestral é fortemente recomendada nesse grupo.

Pessoas com comorbidades (doença pulmonar crônica, cardiopatias, diabetes, obesidade, doença renal, câncer)

  • Ministério da Saúde: vacinação anual, integrada ao calendário de rotina;
  • IDSA: vacinação recomendada, alinhada com decisão clínica individualizada.

Imunocomprometidos (transplantados, pacientes oncológicos, em uso de imunobiológicos, com HIV em imunossupressão grave, entre outros)

  • Ministério da Saúde: uma dose a cada 6 meses, com três doses iniciais para quem nunca se vacinou;
  • IDSA: recomendação forte a recomendação mais enfática do documento, sustentada por evidências sólidas. Ao menos uma dose da fórmula 2025-2026 o quanto antes, e uma segunda dose “provavelmente prolonga a proteção”. A IDSA também recomenda que contatos domiciliares desses pacientes estejam em dia com a vacina, para reduzir o risco de transmissão dentro de casa.

O que dizem os números: 13,5 bilhões de doses depois

A campanha de vacinação contra a COVID-19 é a maior da história da humanidade. Segundo dados consolidados pela Organização Mundial da Saúde, mais de 13,5 bilhões de doses já foram administradas mundialmente, alcançando cerca de 70% da população global com pelo menos uma dose.

Esse volume sem precedentes permitiu uma vigilância de segurança igualmente sem precedentes. Em 2023, a International Coalition of Medicines Regulatory Authorities (que reúne agências reguladoras de mais de 30 países, incluindo FDA, EMA e Anvisa) publicou um balanço endossado pela Agência Europeia de Medicamentos concluindo que as vacinas contra a COVID-19 têm perfil de segurança consolidado em todos os grupos etários, incluindo crianças, gestantes e imunocomprometidos. Como acontece com qualquer medicamento ou vacina, eventos adversos podem ocorrer, mas os mais comuns são reações leves e passageiras, como dor no local da aplicação, cansaço ou febre baixa nas primeiras 24 a 48 horas. Reações graves são extremamente raras e justamente por isso o monitoramento de segurança das vacinas contra COVID-19 é considerado o mais robusto da história da medicina, com mais de cinco anos de vigilância contínua em dezenas de países.

Quanto ao impacto na saúde pública, estudos revisados por pares estimam que as vacinas contra COVID-19 evitaram entre 14 e 20 milhões de mortes apenas no primeiro ano da campanha global, e cerca de 2,5 milhões de mortes adicionais entre 2020 e 2024 segundo análise mais conservadora publicada em 2025. A maior parte do benefício se concentrou em adultos mais velhos exatamente o grupo que continua sendo prioritário hoje.

A diretriz da IDSA, especificamente, encontrou que a vacina atualizada reduz nos imunocomprometidos:

  • Hospitalização em torno de 37–46%;
  • Casos muito graves em cerca de 40%;
  • Mortalidade em cerca de 61%.

Sobre eventos adversos graves, a IDSA conclui que existem “pouco ou nenhum” associados às vacinas atuais, e que exacerbações de doenças autoimunes ou rejeição de transplante não aumentam de forma clinicamente relevante após a vacinação.

A mensagem comum

O Ministério da Saúde do Brasil e a IDSA partindo de contextos institucionais, políticos e geográficos completamente diferentes chegam à mesma conclusão: a vacina contra a COVID-19 segue indicada em 2026, com prioridade clara para crianças pequenas, gestantes, pessoas 60+, pessoas com comorbidades e imunocomprometidos. As duas reconhecem que o vírus deixou de ser uma emergência aguda, mas continua sendo uma ameaça real para quem tem maior vulnerabilidade biológica.

Para o paciente brasileiro, a orientação prática é simples: siga o Calendário Nacional de Vacinação, que está alinhado com o consenso internacional, e converse com seu médico se você se enquadra em algum grupo especial. Cinco anos de dados, 13,5 bilhões de doses e dezenas de estudos independentes apontam na mesma direção.

Fontes consultadas

Este artigo foi baseado em diretrizes oficiais publicadas em 2025 pelas seguintes instituições:

  • Infectious Diseases Society of America (IDSA). 2025 Guidelines on the Use of Vaccines for Seasonal COVID-19, Influenza, and RSV in Immunocompromised Patients. Outubro de 2025.
  • Ministério da Saúde do Brasil. Estratégia de Vacinação contra a COVID-19 — 2025/2026; Calendário Nacional de Vacinação 2026.
  • World Health Organization. COVID-19 vaccination dashboard; International Coalition of Medicines Regulatory Authorities (ICMRA) statement on COVID-19 vaccine safety.
  • American Academy of Pediatrics (AAP). Recommendations for COVID-19 Vaccines in Infants, Children, and Adolescents — Policy Statement. Pediatrics, novembro de 2025.
  • Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Use of COVID-19 Vaccines for Persons Aged ≥6 Months: Recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices — United States, 2024–2025. MMWR, 2024.
  • Watson OJ et al. Global impact of the first year of COVID-19 vaccination: a mathematical modelling study. The Lancet Infectious Diseases, 2022.
Por Dr. Renato Matos 05/05/2026 - 17:57 Atualizado em 05/05/2026 - 17:58

Cansaço. Queda de cabelo. Falta de concentração. Desânimo.

Para muitos, o diagnóstico parece óbvio: “falta de vitaminas”. E a solução, sedutora: uma aplicação na veia, um soro revitalizante, uma dose de B12 para recuperar a energia. Simples, rápido e caro.

Há um problema. A ciência não acompanha a promessa.

Energia em ampola ou marketing bem embalado?

A vitamina B12 é essencial. Participa do crescimento, da formação do sangue e do funcionamento do sistema nervoso. Isso não está em discussão.

O que está em discussão é o uso dessa verdade para justificar tratamentos sem indicação. Nos últimos anos, a B12 virou protagonista de uma tendência crescente: clínicas que oferecem aplicações para “energia”, “bem-estar”, aumento de imunidade e até fins estéticos.

Não há respaldo científico para essas indicações.

A faixa normal de B12 no sangue fica entre 300 e 900 pg/mL. Níveis persistentemente elevados, acima de 1.000 pg/mL, vêm sendo associados, de forma consistente, a maior mortalidade. Estudos recentes também sugerem associação entre B12 alta e maior risco de alguns tipos de câncer, embora a relação ainda esteja sendo investigada e provavelmente reflita uma doença subjacente, não um efeito direto da vitamina.

Ainda assim, a ideia de que “quanto mais, melhor” continua sendo vendida.

Não é.

A deficiência real de B12 é incomum e ocorre em grupos específicos. Fora desses casos, a vitamina não melhora disposição, não emagrece e não reduz estresse.

Há ainda um detalhe pouco comentado: a via endovenosa praticamente não tem indicação clínica, a exceção rara é a intoxicação por cianeto, em situação hospitalar. Quando a reposição é necessária, ela é feita por via intramuscular ou, na maioria dos casos, por via oral, comprovadamente eficaz.

A própria bula da cianocobalamina injetável aprovada pela FDA, agência americana que regula medicamentos com base em evidências, orienta o uso intramuscular ou subcutâneo profundo, e adverte que a administração intravenosa resulta em excreção quase imediata da vitamina pela urina.

Em outras palavras: boa parte do que se paga vai embora pela urina em poucas horas.

Quem precisa e quem não precisa

Vitaminas não são vilãs. Mas também não são solução universal.

A suplementação de B12 faz sentido em contextos clínicos definidos: veganos, idosos com má absorção, pacientes pós-cirurgia bariátrica, portadores de doenças intestinais, usuários crônicos de certos medicamentos, gestantes em risco, deficiência confirmada por exame ou quadros como neuropatia por carência da vitamina. Nesses casos, o tratamento é eficaz, simples e quase sempre feito por via oral.

Para a maioria das pessoas, o essencial continua sendo o básico: alimentação equilibrada, sono adequado, atividade física.

Não uma bolsa de soro.

Por Dr. Renato Matos 23/04/2026 - 17:07 Atualizado em 23/04/2026 - 17:07

Em 2012, um adolescente de 13 anos deu entrada em um hospital de Brasília com uma crise de asma. Menos de 24 horas depois, estava morto. Era Marcelo Dino, filho do hoje ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino. Anos mais tarde, a Justiça reconheceu falhas no atendimento.

O caso expõe uma pergunta desconfortável: como uma doença tão comum ainda pode matar?

A resposta começa por um erro de percepção. A asma costuma ser vista como algo leve e episódico — “uma bombinha resolve”. Na realidade, é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas: mesmo sem sintomas, a inflamação persiste em silêncio e, diante de um gatilho, pode evoluir rapidamente para uma crise grave. Só entre 2019 e 2023, mais de 12 mil brasileiros morreram por asma, segundo dados do Ministério da Saúde — muitos por causas evitáveis.

Durante décadas, o tratamento se organizou em torno do alívio imediato. O paciente sentia falta de ar, usava a bombinha de salbutamol, melhorava — e seguia a vida. Mas esse tipo de medicação alivia o sintoma sem tratar a inflamação que está por trás dele. A crise seguinte continua à espreita.

Hoje, esse paradigma mudou. A Global Initiative for Asthma, que reúne especialistas de vários países e publica as diretrizes internacionais da doença, não recomenda mais o uso isolado desses broncodilatadores — nem mesmo em casos leves. O foco se deslocou: tratar a inflamação desde o começo, com corticoides inalados. No Brasil, o próprio SUS disponibiliza gratuitamente essas medicações, isoladas ou combinadas com broncodilatadores de ação prolongada.

E é aqui que aparece um descompasso pouco discutido fora dos consultórios. Muitos pacientes evitam o corticoide inalado por medo de efeitos colaterais — apesar de sua baixa absorção e alto perfil de segurança. Ao mesmo tempo, recorrem com frequência ao corticoide sistêmico — aquele que é administrado por via oral ou injetável. E não apenas nos prontos-socorros: muitas vezes, ele é iniciado em casa, por familiares bem-intencionados, ao primeiro sinal de piora.

A lógica parece razoável — agir rápido para evitar uma crise grave —, mas é enganosa. O corticoide sistêmico tem indicação precisa, sobretudo em exacerbações moderadas a graves, e não deve funcionar como estratégia preventiva caseira. Usado repetidamente, pode causar hipertensão, alterações glicêmicas, ganho de peso, osteoporose e maior risco de infecções. Mais importante: precisar dele com frequência costuma ser o sinal mais claro de que a asma está mal controlada. O problema não é a crise pontual — é o tratamento de base que está falhando.

E o problema é estrutural. Segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, apenas 12,3% dos asmáticos brasileiros têm a doença bem controlada. A ampla maioria convive com algum grau de descontrole — e com o risco de crises evitáveis.

Nos casos mais graves, a medicina avançou de forma significativa: terapias imunobiológicas agem diretamente sobre os mecanismos da inflamação e, quando há indicação precisa, também estão disponíveis gratuitamente pelo SUS.

A asma é comum, mas não é trivial. É potencialmente grave e, na maioria das vezes, controlável com tratamento adequado. As ferramentas para evitar mortes como a de Marcelo Dino existem — e hoje são melhores do que eram então.

O caminho para usá-las, no entanto, não passa pelo balcão da farmácia. Passa por uma consulta com um médico experiente em doenças respiratórias, capaz de tratar não apenas a crise, mas a doença que vive entre uma crise e outra.

Por Dr. Renato Matos 15/04/2026 - 09:46 Atualizado em 15/04/2026 - 09:46

Dormir parece, à primeira vista, um erro evolutivo. Enquanto dormimos, não comemos, não nos reproduzimos, não protegemos nossos filhos. Ficamos vulneráveis. Em um mundo regido pela sobrevivência, isso soa como uma péssima estratégia.

E, no entanto, todas as espécies dormem.

Não é uma figura de linguagem. De mamíferos a aves, de peixes a organismos muito mais simples, o sono está presente de forma quase universal. Ele atravessou milhões de anos de evolução sem ser eliminado. Isso, por si só, já diz muito. Se algo tão aparentemente ineficiente foi preservado com tamanha consistência, talvez o problema não esteja no sono, mas na nossa compreensão dele.

É aqui que entram os golfinhos.

Diferentemente de nós, eles não podem simplesmente desligar. Precisam nadar continuamente para respirar e sobreviver. Ainda assim, dormem. Encontraram uma solução engenhosa: desligam metade do cérebro por vez. Enquanto um hemisfério descansa, o outro permanece ativo, mantendo o animal em movimento e vigilante. Depois, alternam.

Não escaparam do sono. Adaptaram-se a ele.

A natureza é pródiga em exemplos semelhantes. Aves que dormem em pleno voo. Animais que reduzem o sono em períodos críticos, como reprodução ou risco de predação. Estratégias diversas, um mesmo princípio: o sono pode mudar de forma, mas não desaparece.

A vida se molda para permitir o sono  não para evitá-lo.

Nós, humanos, não temos essa sofisticação. Ainda assim, carregamos vestígios dessa lógica evolutiva. Quem já passou a primeira noite em um ambiente novo conhece a sensação: o sono é mais leve, fragmentado, como se uma parte do cérebro permanecesse em alerta. Um mecanismo ancestral de proteção, ainda presente.

O problema é que, na vida moderna, passamos a agir como se fôssemos uma exceção.

Dormimos menos para ganhar tempo. Para produzir mais. Para aproveitar melhor o dia. Mas a biologia não acompanha essa escolha sem cobrar o preço. A privação de sono compromete memória, imunidade, humor e metabolismo. Aumenta o risco de doenças cardiovasculares e neurodegenerativas. E, de forma mais silenciosa, altera algo essencial: nossa capacidade de nos relacionarmos. Dormir mal nos torna mais irritáveis, menos empáticos, mais distantes.

Hoje, cerca de um terço dos adultos dorme menos do que o recomendado. Vivemos uma epidemia silenciosa  não de falta de tempo, mas de falta de sono.

Talvez a maior ironia seja esta: abrimos mão do sono em busca de eficiência e acabamos funcionando pior.

Os golfinhos não são eficientes porque dormem menos. São eficientes porque respeitam a necessidade do sono, mesmo em um ambiente onde parar pode significar morrer.

Nós, ao contrário, seguimos tentando negociar com a biologia.

E essa é uma negociação que, inevitavelmente, perdemos.

 

Por Dr. Renato Matos 08/04/2026 - 09:13 Atualizado em 08/04/2026 - 09:14

O tabagismo, durante séculos, foi incorporado à nossa cultura, vendido como símbolo de elegância — até que, décadas depois, a conta chegou.

Hoje, não se discutem mais os malefícios do cigarro.
Fumar deixou de ser símbolo de status.
Passou a ser visto como algo ultrapassado — quase constrangedor, brega.

É nesse cenário que entra em cena o cigarro eletrônico.

Colorido, tecnológico, discreto, com sabores e design atrativos — e sem o peso social que o cigarro tradicional carrega.

Mais do que um produto, ele representa uma mudança de percepção.
E esse talvez seja o seu maior risco.

Há evidências — ainda debatidas — de que os cigarros eletrônicos possam ajudar alguns fumantes a abandonar o cigarro convencional.

Mas, na prática, a maioria não abandona a nicotina — apenas muda a forma de consumo.
E outros, especialmente jovens, iniciam um caminho que provavelmente nunca percorreriam com o cigarro tradicional.

Os problemas associados ao uso do vape já começam a ser bem documentados.
Há inflamação das vias aéreas, comprometimento das defesas locais e maior vulnerabilidade a infecções.
Em pessoas com doenças respiratórias, como asma, a piora é frequente e, muitas vezes, significativa.

Não se trata de um vapor inofensivo

É uma mistura de substâncias químicas cujo impacto completo ainda está sendo revelado — mas que já demonstra sinais consistentes de dano.

E, em alguns casos, esse impacto não leva décadas para aparecer.
Ele é imediato.

Em 2019, os Estados Unidos enfrentaram um surto de uma condição até então pouco conhecida: a lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico (EVALI).

Foram mais de 2.800 hospitalizações e 68 mortes confirmadas.

Pacientes jovens, previamente saudáveis, evoluindo com insuficiência respiratória grave, necessidade de ventilação mecânica e internação em UTI.

No Brasil, a ANVISA mantém a proibição da comercialização, importação e propaganda desses dispositivos.

Apesar disso, o acesso segue fácil

Como não são regulamentados, não há controle de qualidade.
Adolescentes os utilizam por meio do mercado ilegal, sem saber o que estão inalando.

Em um cérebro em desenvolvimento, estudos mostram associação entre o uso dos cigarros eletrônicos com:

  • déficit de atenção
  • alterações cognitivas
  • maior risco de transtornos psiquiátricos

Quando aquecidos, os componentes dos cigarros eletrônicos liberam centenas de substâncias químicas — muitas delas com potencial cancerígeno já conhecido.
Assim como no cigarro tradicional.

Além dos riscos diretos à saúde, o cigarro eletrônico traz um impacto social profundo.

Ele normaliza novamente o tabagismo.

Ao tornar o ato de fumar aceitável — e, em alguns contextos, até desejável —, esses dispositivos ameaçam desfazer um dos maiores avanços da saúde pública das últimas décadas.

Por Dr. Renato Matos 31/03/2026 - 11:41 Atualizado em 31/03/2026 - 11:42

Após a pandemia de COVID-19, criou-se a impressão de que as grandes ameaças respiratórias haviam diminuído. Mas os dados mostram o contrário. Na temporada 2024–2025 nos Estados Unidos, estimativas do Centers for Disease Control and Prevention apontam cerca de 51 milhões de casos, com 710 mil hospitalizações e aproximadamente 45 mil mortes — uma das temporadas mais impactantes dos últimos anos.

Nesse contexto, o vírus influenza A — especialmente o subtipo H3N2 — teve participação importante na dinâmica da temporada.

Quem evolui pior — e por quê

Os casos mais graves seguem um padrão claro: ocorrem, em sua maioria, entre não vacinados.

Nos Estados Unidos, entre crianças, cerca de 90% das mortes por influenza ocorreram em pacientes não vacinados ou com vacinação incompleta. Em adultos, embora os dados sejam menos detalhados, a tendência é semelhante: a vacinação reduz significativamente hospitalizações e mortes.

Mais do que evitar a infecção, seu principal papel é reduzir a gravidade da doença.

H3N2: um subtipo que merece atenção

O H3N2 é um velho conhecido da epidemiologia da influenza.

Historicamente, está associado a:

  • maior número de internações
  • maior impacto em idosos
  • maior capacidade de mutação

Sua relevância recente em outros países reforça a necessidade de acompanhamento atento — mas não implica, necessariamente, o mesmo comportamento em todos os cenários.

Situação em Santa Catarina

No Brasil, a vigilância epidemiológica mantém monitoramento contínuo das cepas em circulação.

Em Santa Catarina, já há confirmação da presença do Influenza A (H3N2).
 Até o momento, não há evidência de predominância desse subtipo nem de aumento de gravidade associado.

Esse ponto é importante: a dinâmica local pode diferir do observado em outros países.

Quem deve ter mais atenção

A gripe pode ser leve para muitos, mas representa risco real para:

  • idosos
  • pacientes com doenças respiratórias (DPOC, asma)
  • cardiopatas
  • diabéticos
  • crianças pequenas
  • gestantes

Nesses grupos, complicações e internações são mais frequentes.

Vacina: o ponto central

Existe um equívoco comum: esperar que a vacina impeça todos os casos.

Na prática, seu principal benefício é outro:

  • reduz hospitalizações
  • diminui mortes
  • torna os quadros mais leves

Além disso, ao reduzir a circulação do vírus, protege também os mais vulneráveis.

Por que se vacinar todo ano

O vírus da influenza sofre mutações frequentes. Por isso, a vacina é atualizada anualmente, com base nas cepas em circulação global, em um processo coordenado pela Organização Mundial da Saúde.

Mais do que um dado epidemiológico, um lembrete

A atual circulação do H3N2 em Santa Catarina não representa, isoladamente, um cenário de exceção. Mas funciona como um lembrete oportuno. A influenza continua sendo uma doença com impacto relevante — e, em grande parte, evitável em suas formas mais graves.

Em um contexto de informação abundante, talvez o desafio não seja falta de conhecimento, mas de percepção.

 

Por Dr. Renato Matos 06/04/2022 - 21:10 Atualizado em 06/04/2022 - 21:12

Quando surgiram os primeiros casos de Covid-19 na China, parecia mais uma daquelas doenças raras que ficariam por lá. 

Em 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi oficialmente alertada sobre vários casos de pneumonia atípica na cidade de Wuhan. 

Um mês depois, declarou que o surto do novo coronavírus constituía uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional.

Após 500 milhões de casos e mais de 6 milhões de mortes confirmadas no mundo, o que aprendemos?

As medidas de isolamento social foram fundamentais para salvar milhares de vidas, principalmente no início da pandemia.
As máscaras, quando adequadamente usadas, são extremamente eficientes.
Imunidade de rebanho não se aplica para essa doença. 

A variante Ômicron, que reinfectou boa parte dos que já haviam contraído a doença anteriormente, enterrou de vez essa teoria.
As vacinas confirmaram, na prática, a eficácia e segurança mostradas nos ensaios clínicos feitos com milhares de pessoas.
Temos, hoje, uma outra doença naqueles com esquema vacinal completo - agora sim, uma gripezinha.

Os inúteis medicamentos do kit Covid – cloroquina, ivermectina e azitromicina - definitivamente não têm nenhum lugar na condução dos casos. 
O estudo TOGETHER, publicado na edição de 30 de março passado na New England Journal of Medicine, mostrou mais uma vez a total ineficácia da Ivermectina quando utilizada nos primeiros 7 dias de sintomas.

Mas já temos medicamentos preventivos de verdade. 
Há poucos dias, a ANVISA aprovou para uso emergencial o PAXLOVID, medicamento da Pfizer que, se tomado nos primeiros 5 dias da doença, reduz a necessidade de internação em aproximadamente 90%.

Era o que precisávamos para lidar com aquelas pessoas mais vulneráveis, com potencial de evolução desfavorável.
De certa forma, como o Tamiflu na gripe, mas muito mais eficaz.

Em relação a novas mutantes do coronavírus, apesar de novas subvariantes da Ômicron, como a BA.2 e, mais recentemente, a XE (mistura de material genético da BA.1 com a BA.2), nenhuma mostrou escape vacinal significativo.

QUARTA DOSE

Apesar de incertezas quanto à necessidade de um segundo reforço vacinal na população em geral, elas já são indicadas para imunodeprimidos e pessoas acima de 80 anos.

Recentemente, o FDA passou a recomendar essa dose para indivíduos acima de 50 anos, quatro meses após seu reforço inicial.

Um artigo publicado também na New England, agora, em 05 de abril, mostrou que a quarta dose reduziu em 3,5 vezes o número de casos graves da Covid quando aplicada em indivíduos acima de 60 anos em Israel.

A Organização Mundial da Saúde mantém o objetivo de vacinar pelo menos 70% da população mundial até meados de 2022, mas também admitiu que ajustes à meta de 70% estão sendo considerados – talvez sejam necessários mais vacinados para que seja reduzido de forma significativa o aparecimento de novas variantes de preocupação.

No entanto, de acordo com Our World In Data, apenas 14,7% das pessoas em países de baixa renda receberam pelo menos uma dose de vacina contra a SARS-CoV-2. 

Essas desigualdades podem trazer ainda alguns capítulos para essa história.

Por Dr. Renato Matos 30/03/2022 - 11:30 Atualizado em 30/03/2022 - 11:39

Ao longo da história, as doenças infecciosas acompanharam e aumentaram o sofrimento das guerras.
As privações, aglomerações em espaços pouco ventilados, movimentações em massa e a destruição dos sistemas de saúde são caldos de cultura para o desenvolvimento de doenças transmissíveis.

Antes do surgimento de tratamentos apropriados, morriam mais pessoas de doenças infecciosas do que propriamente das perdas diretas das batalhas.
Essas doenças ficaram conhecidas como o "terceiro exército".

Entre as enfermidades que costumam crescer durante as guerras, salienta-se a tuberculose, transmitida por via aérea.
Sua peculiaridade é que pessoas que tiveram contato com doentes podem infectar-se sem manifestar a doença - a chamada tuberculose latente.

Em situações de redução da imunidade – e a guerra é cheia delas – esses infectados tornam-se doentes.
No Brasil, onde a doença é endêmica, estima-se que 1/3 da população tem a tuberculose em sua forma latente.
Apenas de 5% a 10% desses infectados irão ficar doentes ao longo de suas vidas, a imensa maioria por reativação da infecção prévia.

A tuberculose matou mais pessoas que qualquer outro agente infeccioso na história. 
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, anualmente, 10 milhões de pessoas adoeçam de tuberculose no mundo, com aproximadamente 1,5 milhões de mortes.

É uma doença negligenciada, diretamente relacionada à pobreza. 
Apenas oito países representam dois terços do total do número de casos, com a Índia liderando a contagem. 
Pelos dados do Banco Mundial, enquanto a incidência (número de casos novos/ano) de tuberculose nos EUA é de 2 casos por 100.000 habitantes, no Gabão atinge 527 por 100.000.

O absurdo desses números é que a tuberculose é uma doença curável e passível de prevenção.
 O diagnóstico habitualmente é simples e há medicamentos eficazes e baratos disponíveis desde meados do século passado.

Nas últimas décadas, têm surgido formas resistentes da bactéria que causa a tuberculose, com índices de cura muito inferiores ao da tuberculose “normal”.
Entre os países mais afetados por essa forma grave estão os da extinta União Soviética.
A Ucrânia ocupa posição de destaque.

A OMS estima que, entre os casos confirmados de tuberculose naquele país, em 2018, 29% tinham formas multirresistentes. 
Dos que já haviam sido tratados anteriormente, 46%.
Para comparação: no Brasil, entre os 67 mil casos novos notificados em 2020, pouco menos de 2% tinham a forma resistente a drogas.

A tuberculose é curada com medicamentos seguros e de baixo custo. O tratamento tem duração de 6 meses. 
Nas formas resistentes, os tratamentos arrastam-se por anos, as drogas são caras e os índices de cura ficam apenas em torno de 50%.
Há um compromisso entre os países signatários da OMS em erradicar a tuberculose até 2035.

A Covid já tornou essa meta menos realista.
Na Ucrânia, com seus altíssimos níveis de multirresistência, a guerra deverá enterrar de vez esse sonho.

Por Dr. Renato Matos 24/03/2022 - 09:20 Atualizado em 24/03/2022 - 09:23

Os términos das pandemias modernas costumam ter data marcada. 
A da gripe H1N1 foi no dia 10 de agosto de 2020 - aproximadamente 8 meses após ter sido declarada uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 
De acordo com a OMS, na época, “o monitoramento epidemiológico mostrou que o vírus H1N1 não sofreu mutação para formas mais letais, a resistência ao antiviral fosfato de oseltamivir não se desenvolveu de forma importante e a vacina se mostrou uma medida eficaz para proteger a população”.

Talvez estejamos nos aproximando de uma situação semelhante com a pandemia da Covid.
Mas, apesar da melhora do cenário dos últimos meses, com a variante Ômicron mostrando-se menos letal naquelas populações com altos níveis de vacinação – reforço, inclusive – a OMS ainda não sinalizou que pretenda retirar da Covid o rótulo de Emergência de Saúde Pública, declarado em 30 de janeiro de 2020.

A discrepância de cobertura vacinal em diferentes países e a recrudescência de casos em países europeus e asiáticos - alguns mostrando, também, aumento na mortalidade - aumentou a sua relutância.
Assim como a declaração de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional cabe, por lei, ao Diretor da Organização Mundial da Saúde, o mesmo vale para a sua revogação.
Tal declaração não teria apenas um valor simbólico ou sinalizaria de uma vez por todas o fim das máscaras.

Suas implicações vão muito além.

Na prática, a medida pode impactar da quantidade de vacinas disponíveis até benefícios trabalhistas, passando por processos de compras públicas.
Em nosso país, um levantamento preliminar mostrou que, somente na área da saúde, há pelo menos 168 portarias cujos efeitos estão vinculados ao estado de emergência e que seriam invalidadas caso ele fosse finalizado.

Alguns imunizantes, como o da Janssen e a Coronavac, poderiam perder o aval da Anvisa - a autorização tem previsão de durar somente durante o estado emergencial. 
Do mesmo modo, poderiam ser impactadas as esperadas autorizações para medicamentos antivirais que já provaram sua eficácia quando usados de forma precoce em pacientes de maior risco. 
A Pfizer e a Merck, fabricantes desses medicamentos, concordaram em permitir em alguns países a fabricação de genéricos de seus produtos “até que a pandemia termine”.

O próprio preço das vacinas poderá ser reajustado – esses valores “camaradas” também são para esse período excepcional.
A autorização do Conselho Federal de Medicina sobre a prática da telemedicina pode cair, já que ficou condicionada à mesma emergência na saúde pública.
O fim de uma pandemia não depende apenas de aspectos médicos, vinculados ao número de casos, à mortalidade, à disponibilidade de medicamentos e às vacinas eficazes. 

Há aspectos políticos, sociais e econômicos a serem considerados.
Decretar o fim da pandemia não é tão simples assim.

Por Dr. Renato Matos 15/03/2022 - 16:36 Atualizado em 15/03/2022 - 16:36

Costumamos ligar o câncer de pulmão ao tabagismo – aproximadamente 90% dos casos apresentam essa associação, comprovadamente causal.

Mas o que provoca a doença nos 10% restantes?

Além das ainda insondáveis causas genéticas e outros fatores ambientais e biológicos (como alguns vírus), boa parte das vezes, os agentes que desencadeiam alterações no DNA que levam ao câncer são as radiações ionizantes – por definição, aquelas que tem energia suficiente para gerar espécies químicas carregadas eletricamente.

Essas substâncias causam danos genéticos durante toda a vida, de forma cumulativa.

As evidências epidemiológicas existentes foram suficientes para que a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) considere essas radiações como cancerígenas em humanos e em animais – no mais alto grau de sua classificação.

A mais importante fonte de radiação ionizante de origem natural é o radônio, um gás desprendido do solo e das rochas, pouco popular entre nós, mas já conhecido desde 1900.

Inodoro, insípido e incolor, não pode ser percebido pelos sentidos. Inalado, pode transferir toda a sua energia para os tecidos pulmonares.

A infiltração do gás pelo solo é a mais importante fonte de radônio em ambientes internos.

O gás radônio escapa facilmente das rochas e do solo para o ar e tende a se concentrar em espaços fechados, como prédios e residências.

É a segunda causa de câncer de pulmão, perdendo apenas para o tabagismo.

As estimativas atuais sobre a proporção de casos de câncer de pulmão atribuíveis ao radônio variam entre 3% e 14%. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA calcula que ele é responsável por mais de 20.000 mortes anuais pela doença naquele país.

Ter a sua casa testada é a única forma de determinar se você e a sua família estão em risco. 

Segundo o Manual da Organização Mundial da Saúde sobre radônio em ambientes internos, as suas medições são relativamente simples de realizar.

Estudo recente, realizado em imóveis localizados na região metropolitana da cidade de São Paulo, apontam que de 70 ambientes analisados, cerca de 11%, apresentaram concentração de radônio acima dos limites recomendados.

Há programas do governo federal que se propõem a fazer um mapeamento das áreas com maiores concentrações de radônio, com resultados ainda não disponibilizados.

Nos EUA, kits para medição são encontrados facilmente, com produtos para uso doméstico que custam em torno de 30 dólares (Amazon).

Por aqui, numa pesquisa via Google, não encontramos nenhum equipamento disponível.

Estratégias relativamente simples de ventilação e construção podem solucionar o problema.

Não existe um limite mínimo conhecido em que a exposição ao radônio não apresente risco.

Mas quanto menor a sua concentração em uma casa, menor o risco.

Por Dr. Renato Matos 02/03/2022 - 09:55

Plausível, hipótese interessante, talvez.
Essas são algumas caracterizações utilizadas por pesquisadores quando são confrontados com a história da chamada gripe russa e sua relação com a nossa pandemia de Covid-19.
Em 1889, apareceu uma nova doença respiratória que se espalhou pelo mundo e causou supostos 1 milhão de mortos – os primeiros casos teriam surgido no mês de maio, em pessoas que viviam em Bukhara, uma cidade que fazia parte do, então, Império Russo. 
O que parecia ser mais uma das recorrentes epidemias de influenza apresentava algumas características peculiares: além dos sintomas habituais da gripe, havia comprometimento do aparelho digestivo e neurológico, entre eles a perda de olfato e paladar, não encontrados em quadros tradicionais da doença.
Também foi notada uma incidência muito baixa de manifestações em crianças e a permanência dos sintomas por meses, principalmente a fadiga.
A gripe russa acabou alguns anos mais tarde, após pelo menos três ondas de infecção.

Existem, até agora, 32 espécies conhecidas de coronavírus em animais. Infectam porcos, cães, gatos, roedores, vacas, cavalos, camelos, baleias beluga, pássaros e, principalmente, morcegos.
Em humanos, há 7 espécies. 
Além daquelas que provocaram doenças graves nas últimas décadas - a SARS-CoV1, MERS e a atual SARS-CoV2 - são conhecidas outras 4 espécies capazes de infectar humanos.
Elas são conhecidas desde a década de 60 e causam sintomas leves de vias aéreas superiores, como um resfriado comum. 
Entre elas, a OC43, a principal suspeita de causar a gripe russa.
A hipótese dos pesquisadores é que a OC43 surgiu em 1889 como um novo vírus, desconhecido do sistema imunológico dos seres humanos da época, motivando a gravidade da pandemia.
Abrandado pelo tempo e, agora, reconhecido pelo nosso sistema de defesa, hoje é um vírus comum, “leve”.
Se aceitarmos a hipótese de que a gripe russa era uma epidemia anterior de coronavírus, sua dinâmica pode nos dar algumas pistas sobre o futuro da Covid-19.
Com a indispensável ajuda das vacinas se transformará numa doença como o resfriado comum?
Ou, como a Influenza, terá mutações frequentes que exigirão reforços vacinais anuais e ainda causarão muitas mortes?
Esperemos os próximos capítulos.

Por Dr. Renato Matos 21/02/2022 - 15:44 Atualizado em 21/02/2022 - 15:45

Temos, agora, os dados sobre o novo medicamento da Pfizer revisados por pares e publicado numa revista de ponta – a New England Journal of Medicine, edição de 16 de fevereiro de 2022.
“Revisão por pares” significa que o trabalho publicado passou pelo crivo de outros pesquisadores com experiência, da mesma área, que não tiveram nenhuma participação naquele estudo.
Os resultados de um trabalho científico, com múltiplas pegadinhas metodológicas e estatísticas, podem conter erros – involuntários ou não – que devem ser detectados antes que o trabalho se torne oficialmente publicado. 
A revisão por pares serve como um “detector de bobagens”, fundamental nessa época em que os estudos são tornados públicos por redes sociais, sem nenhum julgamento da qualidade.
Vimos isso aos montes durante esses anos de pandemia - um dos icônicos foi o “estudo” da Prevent Senior sobre o kit Covid.
Publicação após revisão por pares é a comunicação apropriada da ciência.
Não está isenta de erros, mas reduz a sua ocorrência.
O prestígio de revistas científicas está atrelado à qualidade de seus revisores. 

Nirmatrelvir – O Tamiflu da Covid?

Oral Nirmatrelvir for High-Risk, Nonhospitalized Adults with Covid-19 analisa o uso da associação desse novo antiviral com o ritonavir, um outro antiviral usado no tratamento da AIDS desde 1996.
Avaliou, num ensaio duplo-cego, aleatório e controlado, um total de 2246 pacientes: 1120 pacientes receberam Nirmatrelvir, enquanto 1126 receberam placebo. 
Todos adultos, sintomáticos, não vacinados, não hospitalizados, mas com elevado risco de progressão da Covid-19.
A grande vantagem do novo medicamento é que é utilizado por via oral, durante 5 dias – como o Tamiflu, que usamos em casos de Influenza.
Ao final da análise, a redução do risco relativo (uma medida de probabilidade) de internação por Covid ou morte ao final de 28 dias foi de 88,9% no grupo Nirmatrelvir em relação ao grupo placebo.
Os números foram semelhantes para aqueles que iniciaram o medicamento 3 ou 5 dias após o início dos sintomas.
Das 13 mortes que ocorreram durante o estudo, todas se deram no grupo placebo.
A incidência de eventos adversos foi semelhante nos dois grupos.
A Anvisa recebeu (em 16/2) o pedido de uso emergencial do novo medicamento, já batizado como Paxlovid.
A Pfizer já anunciou preços diferenciados e a possibilidade de renunciar à patente do Paxlovid para países de baixa renda.
Até agora, infelizmente, esse acordo excluiu o Brasil.
Onde já está comercializado, seu preço gira em torno de 500 dólares.
Esses medicamentos não substituem de forma alguma as vacinas.
Mas são um grande passo em direção a uma vida mais normal.

Por Dr. Renato Matos 17/02/2022 - 09:58 Atualizado em 17/02/2022 - 09:59

A Ômicron nos mostrou que variantes podem escapar à imunidade, tanto induzida por vacinas quanto por infecção prévia.

Já aprendemos a não fazer previsões sobre o futuro próximo da pandemia da Covid-19. Mas também sabemos que, enquanto houver grande circulação viral, a possibilidade de novas variantes que possam escapar à proteção dada pela vacina é real.

Segundo o Our World in Data, já foram administradas 10,35 bilhões de doses de vacinas no mundo, mas apenas 10,6% das pessoas vivendo em países pobres recebeu pelo menos uma dose.

Dentro dessa incerteza, qual o posicionamento das entidades médicas em relação à quarta dose?

Em relação aos imunodeprimidos, parece não haver dúvidas de que ela é indicada – e já aplicada - em muitos países, Brasil inclusive.

Mas para aqueles com seu sistema imunológico preservado?

Enquanto alguns países, como Israel e Chile, já iniciaram a administração da quarta dose para grupos específicos de imunocompetentes, ainda não há consenso quanto a sua utilidade.
 

Posicionamento da Sociedade Brasileira de Infectologia

Em nota informativa sobre reforço das vacinas Covid-19, elaborada em 10/02/2022, a Sociedade Brasileira de Infectologia dá seu parecer.

“O Brasil tem nesse momento 76% das pessoas elegíveis vacinadas com o esquema básico, e apenas 33% da população vacinável com a dose de reforço”. 

“Diversos trabalhos científicos publicados demonstram que contra a variante Ômicron é necessário o esquema com três doses para melhor proteção dos indivíduos. Portanto, a medida mais urgente em termos de vacinação para o país é avançar no percentual de pessoas que já completaram o esquema básico com dose de reforço”.

As vacinas atuais ainda utilizam a sequência do vírus original de Wuhan. Desde então, já foram descritas mais de 5 mil variantes, felizmente apenas poucas elevadas à categoria “de preocupação”.

“As vacinas de mRNA (Pfizer e Moderna) segundo informações serão atualizadas proximamente para a variante Ômicron, sendo este outro aspecto a ser considerado para a utilização da 4ª dose de forma nacional neste momento”.

Resumindo: ainda não temos dados sólidos para que seja recomendada a quarta dose para a população em geral, com exceção dos imunossuprimidos.

Porém, em poucas semanas, tudo pode mudar.
 

Por Dr. Renato Matos 07/02/2022 - 09:04 Atualizado em 07/02/2022 - 09:04

O Dia Mundial do Combate ao Câncer, 4 de fevereiro, é uma iniciativa global com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS). 
Tem como objetivo aumentar a conscientização e a educação mundial sobre a doença, além de influenciar governos e indivíduos para que se mobilizem pelo seu controle.
Em 2021, segundo a Organização Mundial da Saúde, 20 milhões de pessoas foram diagnosticadas com câncer e 10 milhões morreram.
Todos os tipos de câncer podem ser tratados. Muitos deles, prevenidos e curados.
Como em tantas doenças, o acesso a um tratamento adequado reflete as desigualdades do nosso mundo. 
A distinção mais clara é entre países ricos e pobres.
Segundo a OMS, “um tratamento alegadamente abrangente é disponível em mais de 90% dos países de alta renda, mas em menos de 15% dos países de pobres”.
Pior: “a sobrevivência das crianças diagnosticadas com câncer é superior a 80% nos países de alta renda e inferior a 30% nos países de baixo e médio rendimento”.
Assim como no acesso as vacinas contra a Covid, as desigualdades são imensas.
O incompreensível é que o país que dispõe dos melhores centros de tratamento para câncer do mundo – os EUA – seja também o país com maior número de mortes comprovadamente secundárias à Covid.
Atingiram impensáveis 900 mil mortes.
Acesso à tecnologia não é tudo.
É preciso informação de qualidade.
Os EUA, líder de mortes por Covid, também são campeões de negacionistas e antivacinas. 

Por Dr. Renato Matos 03/02/2022 - 09:05 Atualizado em 03/02/2022 - 09:07

Em artigo publicado em “O Globo”, de 29/01/2022, o geneticista Salmo Ralkin, traz informações compiladas diretamente dos dados do Ministério da Saúde pelo infectologista pediátrico Dr. Marco Aurelio Safadi, Chefe do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e Presidente do Departamento de Doenças Infecciosas da Sociedade Brasileira de Pediatria.

“Até 2021, 34 mil menores de 19 anos de idade foram hospitalizados com síndrome respiratória aguda grave pela Covid-19. Destes, 2,6 mil foram a óbito, implicando em uma letalidade entre crianças hospitalizadas de 7,2%, cerca de dez vezes maior do que nos EUA (de 0,5% a 1%)”.

“Ao contrário do que se desinforma, entre as que foram a óbito, 40% não tinham comorbidades”. 

“Uma complicação da Covid-19 em crianças, a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica, prevenível por vacinação, ocorre em uma a cada quatro mil crianças infectadas, tem letalidade de 6% no Brasil, e metade das mortes ocorreu justamente no grupo entre 5 e 11 anos de idade”.

Estamos vendo que a variante Ômicron, amplamente predominante no país, não é tão “mansinha” assim, nem veio para acabar com a pandemia.

Já temos variantes da variante Ômicron.

Além dos recordes diários de casos no país, as mortes que, em dezembro, estavam pouco acima de 100 ao dia, já estão alcançando quase 700. 
A maioria entre os incompletamente vacinados ou não vacinados – situação das crianças.

Nunca nos perdoaremos se algum filho – ou neto - nosso tiver complicações ou morrer infectado pelo SARS-CoV-2, com todas as informações que já temos sobre a segurança e eficiência das vacinas.

Não tenha dúvidas.

Vale muito a pena.

Por Dr. Renato Matos 31/01/2022 - 08:36 Atualizado em 31/01/2022 - 08:36

Assistimos neste domingo a uma das finais mais emocionantes de Grand Slam – os quatro principais torneios do tênis mundial: Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open.

Num jogo em que cada ponto era disputado ao limite - contra o russo Medvedev, 10 anos mais novo que Nadal, jogando o seu melhor tênis - a vitória do espanhol Rafael Nadal chegou após extenuantes 5 horas.

Com isso, Nadal tornou-se o maior vencedor de Grand Slam da história.

Esse recorde poderia ter sido alcançado na Austrália por Novak Djokovic, que já venceu por 9 vezes o torneio de Melbourne.

Mas ele resolveu jogar no time dos antivacinas e encontrou um país sério e que não abre exceções para estrelas quando o assunto é combater a disseminação da Covid.

Para piorar a imagem do tenista sérvio foi divulgado que é cofundador e sócio majoritário da QuantBioRes, empresa dinamarquesa de biotecnologia que pretende criar um remédio para tratar a Covid-19.

Seria ele o futuro garoto propaganda não vacinado?

O feito de Rafael Nadal ganha destaque quando lembramos que ele teve sérios problemas físicos no ano passado e foi recentemente infectado com a Covid-19.

Devidamente vacinado e protegido, teve fôlego suficiente para ganhar do jovem Medvedev.

Nadal já marcou sua posição: “eu acredito no que dizem as pessoas que sabem de medicina. E se dizem que precisamos nos vacinar, temos de nos vacinar. É a minha opinião.”

Alguns são bons atletas.

Outros viram lendas.

Por Dr. Renato Matos 26/01/2022 - 08:23 Atualizado em 26/01/2022 - 08:26

Eric Topol, cardiologista norte-americano, é um dos 10 pesquisadores mais citados da área médica. Acompanha, como poucos, o desenrolar da pandemia, com postagens baseadas nas melhores evidências disponíveis. Uma excelente indicação para quem gosta de ciência e do Twitter.

Publicou há poucos dias um interessante artigo no seu site Ground Truths. 
“Qual é a nossa situação em relação à Ômicron? 
Os dados, a matemática, os padrões, e a saída”

Daí, saem as informações abaixo.

Enquanto as doses de reforço com as vacinas mRNA (Pfizer e Moderna) e de vetor viral (AstraZeneca) restauram a proteção contra infecções sintomáticas provocadas pela variante Delta num patamar acima de 90%, o mesmo não acontece contra a variante Ômicron.

Nesse caso, o reforço vacinal aumentou a proteção (contra infecções sintomáticas) para pouco mais de 50%. 

Deixaram de funcionar?

Claro que não.

Estão cumprindo o prometido – redução das hospitalizações e mortes.

Há 3 estudos avaliando esse tópico, com surpreendente consistência entre eles – 88%, 89% e 90% de eficácia do reforço contra complicações da Ômicron.
Valores muito acima do observado entre aqueles que ainda não fizeram o reforço, apesar da indicação: 44% a 68%.

A dose de reforço não só multiplica os anticorpos neutralizantes, já conhecidos dos leitores, mas expande as células de memória, estas, sim, mais importantes contra as formas graves da doença – e relacionadas à duração da resposta imune.
Na dúvida, Israel já começou a aplicar a segunda dose de reforço naqueles com mais de 60 anos. Aguardemos os resultados.

Enquanto alguns torcem para que a Ômicron seja a última parada da pandemia, “parece estar claro que estamos longe de conter o vírus neste momento”. 
Pior, “esta alta circulação viral poderá resultar em novas variantes, inclusive com maior evasão vacinal”. 

Precisamos de novas vacinas, capazes de reduzir ainda mais a transmissão.

E que, idealmente, resultem em uma vacina universal, capaz de proteger contra muitas – ou todas – as variantes do SARS-CoV-2.
“Talvez este dia não chegue tão cedo”, escreveu Eric Topol, citando um editorial do The Washington Post.

Por Dr. Renato Matos 24/01/2022 - 09:35 Atualizado em 24/01/2022 - 09:35

O Colegiado dos Professores Titulares da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo publicou uma nota de solidariedade e apoio ao Professor Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho, Coordenador da Disciplina de Pneumologia daquela entidade.

Carlos Carvalho foi o coordenador do Grupo de Trabalho instituído a pedido do Ministério da Saúde, que reuniu inúmeros especialistas, representantes de diversas Sociedades Médicas, para redigir as diretrizes para tratamento ambulatorial da Covid-19.

Depois de descartável e inútil consulta pública, o documento foi aprovado pela CONITEC, apesar de insensata votação contrária dirigida por entidades politicamente enviesadas.

Como de praxe, o documento foi enviado à Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, do Ministério da Saúde – que, até onde sabemos, nunca rejeitou uma diretriz aprovada pela CONITEC.

Porém, em publicação assinada pelo oftalmologista Helio Angotti Neto, a diretriz para tratamento da Covid-19 foi rejeitada.

Ficou famosa uma tabela apresentada na página 24 do documento.

Entre outras bobagens, afirma que há ensaios clínicos randomizados e controlados provando a eficácia da Hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, enquanto não existiriam tais estudos para as vacinas.

Repetindo: vacinas não seriam eficazes, nem seguras, pelo posicionamento da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde.

A Hidroxicloroquina, sim.

Estudantes de medicina e profissionais de saúde que tenham aprendido a avaliar publicações médicas sabem como é injustificável essa posição.

Não se discute mais o papel da Hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 há muito tempo, no mundo todo – não há mais dúvidas quanto a falta de eficácia nesse contexto. Não é opinião – é fato.

Ainda perplexo, um grupo de docentes, profissionais de saúde e pesquisadores brasileiros criou um abaixo assinado contra a nota antivacina e a rejeição do documento da CONITEC.

A velocidade com que se multiplicam as assinaturas mostra o repúdio daqueles que desde o início da pandemia vêm buscando oferecer aos brasileiros o melhor que a ciência produziu.

No corpo do documento, palavras duras, fruto da desilusão com a forma que a pandemia vem sendo conduzida a nível federal: “causa enorme preocupação o fato de que as rédeas do Ministério da Saúde estejam sob a posse da ideologia, da desinformação e, principalmente, da ignorância. O comportamento do Ministério da Saúde transgride não somente os princípios da boa Ciência, mas avança a passos largos para consolidar a prática sistemática de destruição de todo um sistema de saúde”. 

Aos interessados, acesso via chng.it/nqvhYtfG, via @change_br.

Já assinei.

Por Dr. Renato Matos 19/01/2022 - 08:42 Atualizado em 19/01/2022 - 08:44

Frente à imensa eficiência e segurança das vacinas contra a Covid-19, na falta de melhores argumentos, uma das alegações repetidas pelos desinformados (às vezes, mal-intencionados) antivacinas é que estamos usando imunizantes “experimentais”.

Um pouquinho de história.

Katalin Karikó, búlgara, doutora pela Universidade de Szeged, uma das tradicionais daquele país, emigrou para os Estados Unidos em 1985 para um pós-doutorado na Universidade da Pensilvânia.
Seu objeto de pesquisa era o RNA mensageiro (mRNA), já conhecido há algumas décadas.

Na época, todas as atenções na área estavam focadas no Projeto Genoma Humano - empreendimento multinacional que buscava decifrar o “livro da vida” - iniciado em 1990 e completado em 2003.

O RNA, sigla para ácido ribonucleico, era considerado secundário – uma molécula que “apenas” copia as informações do DNA no núcleo e transmite esses dados para outras estruturas produzirem proteínas.

Persistente, acreditando no potencial terapêutico de suas pesquisas, Karikó começou, no início da década de 90, a aplicar em animais sequências de RNA mensageiro através de injeções intramusculares.

O objetivo era que essas moléculas, uma vez dentro das células, começassem a produzir proteínas conforme a “receita” preparada pela pesquisadora.

Mas falhava repetidamente: as moléculas de mRNA sintetizadas pela cientista eram reconhecidas como estranhas pelo sistema imunológico e rapidamente eliminadas.

Em 2004, com mudanças na formulação do mRNA, os resultados começaram a aparecer. 

Vislumbrando seu potencial, a Universidade da Pensilvânia logo patenteou os achados de Karikó.

Em 2010, um grupo de arrojados cientistas, saídos das melhores universidades norte americanas, comprou esses direitos e fundou a ModeRNA – acrômio para Modifiyng RNA - pioneira nas vacinas mRNA, que mudaram a história da nossa pandemia.

Em 2013, Katalin Karikó começou a trabalhar na empresa BioNTech, onde atualmente é vice-presidente.

A BioNTech é a parceira da Pfizer na produção das também vencedoras vacinas contra o SARS-CoV-2, que usam a mesma plataforma mRNA.

Katalin Karikó é uma das fortes candidatas a prêmio Nobel de química deste ano.

O que a pandemia fez foi liberar os bilhões de dólares necessários para que a vacina saísse do laboratório.

Depois de 30 anos de incontáveis experimentações.
 

Por Dr. Renato Matos 17/01/2022 - 08:29 Atualizado em 17/01/2022 - 08:32

O coração possui 3 camadas: a mais interna é o delgado endocárdio, a média é o musculoso miocárdio e o revestimento externo é um saco fibroso, chamado pericárdio.
Miocardite e pericardite são processos inflamatórios envolvendo essas estruturas.

A frequência de miocardite na população em geral não é bem definida, uma vez que a apresentação clínica é variável e não existe um teste relativamente acurado que possa confirmar o diagnóstico.
Para termos um padrão de comparação, no relatório do Global Burden of Disease, de 2019, a taxa de miocardite entre 35 e 39 anos foi de 6,1 por 100.000 habitantes nos homens e 4,4 por 100.000 nas mulheres.

Na edição de 14 de dezembro passado, o periódico Nature Medicine, um dos de maior prestígio da área, traz números que mostram a associação entre miocardite, pericardite e arritmias cardíacas relacionadas à vacina e à infecção pelo SARS-CoV-2.

Foram avaliadas pessoas acima de 16 anos de idade vacinadas contra a Covid-19 na Inglaterra, entre dezembro de 2020 e agosto de 2021.
Os dados se referem a quase 40 milhões de vacinados.

O aumento do risco após a primeira dose da vacina da Oxford/AstraZeneca foi de 1 evento por milhão de vacinados. 
Com a vacina da Pfizer, 6 casos adicionais por milhão.
Após a segunda dose, 10 casos extras.
Naqueles infectados pelo SARS-CoV-2, QUARENTA casos adicionais por milhão.

Miocardite após vacina da Pfizer em crianças

Como com qualquer vacina, são comuns efeitos leves após a vacinação contra a Covid-19 para crianças de 5 a 11 anos – dor no local da aplicação, leve mal-estar, cefaleia e, eventualmente, febre.
A preocupação são efeitos colaterais graves.

Recentemente, o Centro para Controle de Doenças e Prevenção dos EUA (CDC) liberou dados referentes à vacinação de 8,7 milhão de crianças entre 5 e 11 anos de idade.
A única vacina aprovada nos EUA para essa faixa etária é a da Pfizer, liberada para aplicação naquele país desde outubro de 2021.
Altíssimo perfil de segurança.

Em relação a miocardite, foram relatados 11 casos suspeitos.

Destes, 8 preencheram os critérios pré-definidos para a doença – menos de 1 caso por milhão.
Nenhum caso grave, nenhum óbito.

Eficácia superior a 90%.
Sejamos racionais. 

Não há nenhuma razão lógica para deixarmos de vacinar nossos filhos.

« 1 2 3 4 5 6 7

Copyright © 2026.
Todos os direitos reservados ao Portal 4oito